A ternura dos 40. Não conhece? As mulheres autistas explicam

A proporção 4:1 no Autismo é sobejamente conhecida. Desde sempre que é referido a existência de uma maior prevalência de casos de Autismo no sexo masculino. Para além das implicações conceptuais e teóricas, quais as implicações na vida quotidiana da mulher adulta que suspeita ser Autista?


Receber o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) é um marco importante na vida de uma pessoa. No entanto, o processo de diagnóstico pode ser experimentado como desafiador e árduo.

As mulheres frequentemente recebem o diagnóstico de PEA mais tarde do que os homens, deixando as suas necessidades por compreender e sem uma resposta adequada.


Quando acompanhamos mulheres que suspeitam de ter um diagnóstico de PEA e que se vem a confirmar após uma avaliação, são várias as questões emergentes neste processo. Nomeadamente, viver uma condição oculta. Isto é, procurar fingir ser normal e tentar integrar-se. A problemática da saúde mental e a rotulagem incorrecta. Aqui falamos acerca do comportamento de camuflagem social. E que nas mulheres autistas parece estar mais presente pelas sua capacidade de aprendizagem de comportamentos sociais. Mas também pelo seu desejo em interagirem socialmente. Esta ideia de nunca estarem integradas. Ou pelo contrário, de estarem sempre desajustadas. Faz com que exista um crescendo de sofrimento psicológico associado. Isto é verdade no autismo e em qualquer outra condição.


A questão da saúde mental e da rotulagem incorrecta prende-se com a existência das múltiplas condições psiquiátricas existentes no autismo e também na mulher. Nomeadamente, depressão e ansiedade. Estas diversas condições agravam o prognóstico e por conseguinte aumentam o sofrimento. Mas também se verifica a atribuição de um outro diagnóstico que não de Autismo e que vai sendo prevalecente ao longo do desenvolvimento pela adolescência e vida adulta. Não que o diagnóstico atribuído não esteja correcto. Por vezes está. A questão é que em grande parte aquilo que melhor explica as características é uma PEA e não somente uma depressão ou ansiedade recorrente. Este facto traduz-se em prescrições por vezes desnecessárias. Mas principalmente uma ainda maior incompreensão e sensação de desesperança e até mesmo descrédito na saúde mental e nos profissionais de saúde.


Um outro aspecto prende-se com o processo de aceitação (reacções iniciais e procura de entendimento; re-viver a vida através de uma nova perspectiva). No momento pós diagnóstico há um misto de reacções. Desde uma zanga e até mesmo ira para com os inúmeros profissionais de saúde que negligenciaram questões que em muitas situações são evidentes para o diagnóstico de PEA. Mas também uma sensação de alivio e promessa de um caminho diferente e mais positivo. Receber o diagnóstico nesta fase pode ser encarado como uma oportunidade para a reconstrução de uma nova identidade. Redesenhada com novos significados e vivências, seja consigo própria mas também na relações com os outros. Há uma propensão para uma mudança no bem estar e na própria visão do Self.


Estes factores fazem ressaltar vários aspectos pouco falados e que afectam o diagnóstico tardio em mulheres, incluindo compreensão limitada dos outros. O diagnóstico por norma é experimentado como facilitando a transição de uma posição de autocrítica para auto compassiva, associado a um aumento na capacidade de gestão. Adicionalmente é experimentado uma mudança na identidade que permite uma maior aceitação e compreensão do Self. Contudo, todo esse processo de ajustamento e de procura incessante é extremamente doloroso. É difícil de haver um ajustamento por parte da mulher principalmente por o diagnóstico ser realizado num momento tão tardio, e que urge ajudar a mudar.

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