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A morte também morre

Deixei cair a jarra que ela tanto amava junto aos meus pés. Estava descalça. Quase sempre andava descalça em casa. Parecia gostar daquele jogo do gato e do rato que ela e eu fazíamos. Vai calçar-te, dizia-me. A forma como ela o dizia fazia-me sentir o corpo aquecido. Os pés também. Já vou avó, já vou, dizia-lhe sabendo que ela também o sabia. Mais ninguém o sabia e isso fazia de nós seres especiais. Ela fazia questão de o dizer-me - A avó ama-te muito. E o meu corpo voltava a ficar todo ele aquecido. Os pés também, mesmo que estivesse de pés denudados no chão de tijoleira. Ai sua marota continuas descalça, dizia-me sem conseguir disfarçar o sorriso. Eu olhava e ela sabia que eu também a amava. Ela sabia as palavras que eu dizia dentro de mim. Mesmo que mais ninguém o soubesse naquela altura, escreveu Júlia (nome fictício). Júlia foi diagnosticada com Perturbação do Espectro do Autismo. Na altura o nome era apenas autismo. Ainda que nada disso interessasse à Júlia. Era apenas mais um nome que não conseguia dizer. Júlia era não verbal e foi-o durante algum tempo mais. A terapia ajudou-a em muito nisso. A avó ajudou-a em tudo o resto. Deu-lhe voz para o mundo e para as outras pessoas. Sendo que esta voz não o foi apenas isso de forma literal. Vocês não percebem que a Júlia está a querer dizer-vos que está muito barulho?, dizia a avó. Eu penso que a Júlia possa estar a querer dize-nos que gostava de comer esparguete novamente!, dizia também. Mas também ajudou a levar voz para dentro da Júlia. Nita (nome fictício), como Júlia chamava à avó ajudou-a a compreender o mundo e a si própria. E parte de Júlia passou a ser da Nita e vice versa. Perdê-la foi perder-me a mim própria novamente, escreve Júlia. Só que desta vez já não tenho a Nita. E não sei como é que eu me vou encontrar!, desabafa. Dizem que a dor e o pesar pela morte é uma experiência, refere. Tenhamos já passado por isso ou ainda não. E que todos haveremos de passar. E os últimos a fazê-lo será a vida e por último a morte. Sim, a morte também morre, escreve. Talvez não saibam que as pessoas autistas sentem a dor e o pesar de forma diferente! Não um diferente deste ou daquele. É um diferente de qualquer um, menciona. As pessoas não compreenderam porque é que eu não seguia os rituais habituais no velório, no funeral ou até mesmo nos dias após tudo isto, desabafa. Mas as pessoas também nunca me quiseram perceber. Todos menos a Nita. E agora a Nita morreu. Até esta palavra parece difícil de dizer, tal como no principio em que tive de ser ajudada a falar. A família queriam estar perto uns dos outros. Não era apenas a mim que a Nita fazia falta. A Nita fazia falta a todos. E eles procuravam preencher a falta da Nita com a presença dos outros. Mas eu não conseguia. A falta da Nita apenas podia ser preenchida por si própria, percebe?, escreveu-me Júlia um dia. Sempre pensei que a morte viesse aos poucos. Já me tinham falado disso. Por exemplo, quando tivemos um cão em determinada altura da minha infância. Ao fim de uns anos começaram a falar-me de que um dia o Zip haveria de morrer. E ao fim de algum tempo o Zip morreu. Foi assim que eu aprendi que a morte vinha aos poucos. E haveria de ser assim com qualquer outro, ainda que eu não ficasse sequer a pensar nisso. Por que é que eu haveria de ficar a pensar nisso?, perguntava-se. Não fazia sentido, logo não pensava nisso!, respondia-se no imediato. A morte inesperada de Nita fez com que desacreditasse de tudo e de todos. Aquilo não se fazia a ninguém e muito menos a mim!, pensava Júlia. Mesmo que quisesse escrever as coisas que sentia não conseguia, refere. Não aquelas. Não havia palavras. Por que a Nita também já não havia, compreende?, perguntou-me. Tenho procurado falar com ela. Eu sei que já não posso. Ainda assim um destes dias agarrei no telefone para ligar a ela, refere. Tenho falado sozinha como se estivesse a falar com ela. Procuro repetir todas as conversas que tivemos e as quais me lembro. Repito-as uma e outra vez. Eu percebo que as pessoas lá em casa fiquem preocupadas, mas é a minha forma de a manter comigo, você percebe, não percebe?, pergunta-me.


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