A minha mãe vista pelo vidro do carro

Já não via a minha mãe há algum tempo, diz Judite (nome fictício). Fui visita-la no dia de anos. Fez setenta e três anos. Não parece, pois não?, pergunta-me mostrando a foto da mãe. Muitas vezes sentia que não a conhecia. Penso que ela própria também nunca se conheceu. Pelo menos boa parte da sua vida, acrescenta. Foi tradutora durante a sua vida inteira. Tinha uma livraria no centro da cidade. Por vezes ficava lá de um dia para o outro. Penso que foi isso que terá levado o meu pai a pedir o divórcio. O homem nesta foto não é o meu pai. Morreu pouco depois dessa altura. A minha mãe nem sequer apareceu no funeral. Tinha coisas para fazer, disse-me ao telefone. Não me disse mais nada. Eu também não sentia que tinha muito mais para lhe dizer. Foi sendo assim durante quase todo o tempo em que vivi lá em casa com eles. A minha mãe passava o tempo a ler. Já o fazia desde criança. Aprendeu cedo. Tornou-se muito capaz na leitura. E foi isso que continuou a fazer. Interessava-se por arte. Não gostava de outra coisa senão da Era dourada Alemã. Sabia tudo desse período. Não falava de outra coisa. Não lhe interessava. Também não se designava a explicar o porquê. Simplesmente voltava a olhar para o livro que estava naquele momento a ler e continuava. Não lhe conheço nenhuma amizade. A família, além de pequena, nunca houve grande contacto. Os irmãos da minha mãe nunca os conheci. Nem mesmo por ela. Não há grande coisa para te contar sobre eles, são rapazes!, dizia-me sempre que procurava saber alguma coisa. Conheceu o Artur (nome fictício) que está na foto algum tempo depois do meu pai morrer. Artur era professor de História. Ia muitas vezes à livraria. Penso que a minha mãe nunca terá percebido o interesse de Artur por ela. Mas acabaram por ficar juntos. A forma como a vida vai acontecendo parece levar a que as pessoas não se questionem sobre ela. A minha ligou-me há uns meses a dizer que o Artur está com cancro e que tem de cuidar dele. À maneira dela sentia-a ansiosa. Da mesma forma que a minha mãe sempre foi uma pessoa deprimida. Mas tudo à maneira dela. Sei disso porque as minhas colegas na escola falavam das suas mães e elas pareciam ser tão semelhantes em várias coisas. Mas não a minha mãe. Há uns anos atrás recebi um telefone do Artur. Estava preocupado com a minha mãe. Havia semanas que saia de casa sempre no mesmo dia e à mesma hora. Artur chegou a confessar-me que pensava que a minha mãe tinha encontrado alguém, outro homem na sua vida. Fiz por não rir, mas disse-lhe que isso nunca haveria de passar pela cabeça dela. Uns tempos mais tarde fiquei a saber que a minha mãe tinha procurado um psicólogo. Logo a minha mãe que sempre disse que esse tipo de profissionais e os médicos eram facilmente substituídos por um bom livro. Ainda pensei que ela estivesse com algum problema neurológico. Mas a sua capacidade de se lembrar e de me recordar de todas as coisas mantinha-se intacto. Depois pensei que fosse oncológico. Não havia ninguém a quem pudesse perguntar. A vizinha do lado com quem a minha mãe sempre falou, não sabia de nada mais a não ser das rosas. A segunda paixão da minha mãe. Não falava outra coisa com a vizinha. Sei disso porque em criança assisti a conversas intermináveis delas as duas. Até eu fiquei a saber algumas coisas de rosas. Acabei por perguntar directamente à minha mãe. Ela disse-me que tinha ido fazer uma avaliação ao psicólogo. Disse-me que tinha traduzido um livro de um alemão. E que foi assim que ficou a conhecer mais coisas da Síndrome de Asperger. Como não podia ficar sem saber um pouco mais foi procurar alguma informação e acabou por ler mais alguns livros. Achou que havia demasiadas descrições que ela se identificava. E foi procurar saber o que aquilo poderia querer dizer. Diagnosticaram-lhe Síndrome de Asperger. Tem estado a fazer acompanhamento com o psicólogo e por isso as saídas regulares todas as semanas na mesma hora. Pouco antes de me vir embora depois desta última visita disse-me que está com receio e sem saber o que fazer depois do Artur morrer. E que não quer nem sabe sequer ficar sozinha. Além disso não tolera que lhe toquem e os ruídos continuam igualmente incómodos para si. E tentar mudar alguma coisa que já estava combinada é simplesmente uma coisa impossível. Nesse dia quando chegou às 14h45 disse-me que se ia sentar para retomar a sua leitura. Artur encolheu os ombros e dentro da sua fragilidade é como se estivesse a querer dizer-me que eu já sei como ela é. Agradeci-lhe o almoço. Não lhe dei os parabéns. Ela nunca gostou.


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