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A importância do trauma

Ninguém gosta de ouvir falar de trauma. Mas não é por isso que ele deixa de existir. Além do mais fingir que ele não existe apenas faz perpetuar o trauma e o impacto que este tem na vida da pessoa.


Aquilo que quero falar sobre o trauma e mais especificamente sobre este no autismo não é para dizer que existe mais uma comorbilidade associada à Perturbação do Espectro do Autismo. Ainda que se encontre cada vez mais a presença de diagnósticos de Perturbação de Stress Pós Traumático nas pessoas com diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Mas não é por ai que eu quero conduzir esta reflexão. O que quero pensar com vocês é a forma como o trauma está presente e é vivenciado de forma diferente na pessoa autista.


Em primeiro lugar parece-me importante podermos todos pensar que as pessoas autistas estão muito mais propensas que a larga maioria de todos nós e inclusive pessoas com outros diagnósticos psiquiátricos à experiência de situações traumáticas. E que esta situação ocorre na vida da pessoa autista desde muito precoce na sua vida. E que se vai acumulando ao longo das suas experiências de vida ao longo dela. Seja na família, na relação com os colegas logo na pré-primária, educadores, professores, colegas de escola e depois de faculdade, trabalho e sociedade de uma maneira geral. Podemos pensar que em todos os contextos há uma maior propensão para a pessoa autista viver e sentir uma experiência traumática.


E ainda mais pensar que continua a haver muitas pessoas que não sabem que têm um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e que isso as leva a ficar sem saber porque razão estão a sentir toda aquela intensidade e imersão na experiência traumática que estão a ter. E ao fim de muitas destas situações ainda ficam muitos deles a pensar que a culpa e responsabilidade de todas aquelas situações é da sua pessoa e da sua incapacidade e inabilidade de não fazer as coisas bem e como todos os outros. E isso em si é um trauma ainda maior que todos aqueles que foram acontecendo ao longo de vida.


E o que dizer das experiências violentas e traumáticas que muitas das pessoas autistas vão tendo e sentindo por causa das questões sensoriais. O ruido está presente em todo o lado. E não, não precisa de ser um som alto e estrondoso. E não, não é apenas com fogo de artificio como muitas pessoas ainda pensam. O dia a dia de uma pessoa autista, desde o levantar até ao deitar e pautado de experiências violentas e traumáticas causadas pelas vivências e experiências sensoriais. E o cheiro! E as texturas das roupas, que em algumas alturas os pais não conhecedores da situação clinica do seu familiar obrigam-no a vestir determinadas roupas com certas texturas. E o mesmo poderá ser dito em relação às texturas na alimentação e de como em casa ou na escola, mais uma vez por desconhecimento, ignorância ou outras razões, é insistido com as pessoas autistas que comam alguns alimentos e que lhes causa repúdio, nojo, desconforto, mal estar, etc., e que se convertem em experiências traumáticas.

E os toques?! Na escola primária as crianças maioritariamente brincam a tocar e empurrar uns e outros. E agarram os seus colegas para os chamar para brincar ou outra coisa qualquer. Mas depois ao longo da vida, e até por questões culturais, muitas pessoas em Portugal costumam falar e ao mesmo tempo tocar na outra pessoa. Já para não falar do hábito em dar dois beijinhos à chegada e mais dois à partida. Ou daquele familiar e amigo que gosta sempre de cumprimentar com um valente abraço apertado.


Ufa!!!!! Pensarão muitos de vocês. Mas tudo isto é a realidade de muitas pessoas autistas ao longo da sua existência. E ainda assim arriscam-se a ser recriminadas e vistas de forma negativa se procuram algum isolamento, até para se protegerem destes ataques constantes e permanentes!


E muitas das vezes as situações experimentadas como traumáticas pelas pessoas autistas nem têm que ter nada a ver com as questões sensoriais, que me parecem mais plausíveis de se pensar. Podem ter a ver com a forma como várias das pessoas autistas pensam sobre as coisas na vida e no mundo. Por exemplo, o facto de sentirem e pensarem que o mundo é um sitio que não os compreende e que eles próprios não entendem a sua lógica e forma de fazer a maior parte das coisas. Isto por si só é vivido como uma experiência traumática. O próprio facto de terem percepcionado que a outra pessoa do grupo não a tenha convidado para sair com o grupo, mesmo que a pessoa autista não quisesse sequer ir. Também isto pode constituir uma experiência traumática. E também repetida. Até porque muitas destas situações se vão repetindo ao longo da vida da pessoa. Este aspecto parece-me fundamental. Até porque temos uma tendência para pensar em situações traumáticas aquelas relacionadas com abusos físicos, psicológicos, sexuais, bullying, cyberbullying, assédio moral, laboral, stalking, etc. Mas há todas uma gama mais variadas de situações e que as pessoas autistas sentem e experimentam como sendo traumáticas. E quando em algum momento as procuram partilhar e pedir ajuda, arriscam-se a verem estas queixas relativizadas e vistas como exageradas. O que leva a uma experiência de invalidação, mas também de trauma.


A própria designação de trauma social, visto como algo que está presente na vida de todos nós no quotidiano precisa de ser equacionado. As experiências de relações interpessoais e sociais nas pessoas autistas são verdadeiros tratados de trauma. E precisam de ser considerados enquanto tal. E ajudar-se a que a pessoa possa compreender de uma outra forma estas mesmas experiências, de preferência de forma preventiva para ajudar a evitar ou minimizar a probabilidade das situações traumáticas.


Além do mais é preciso pensarmos, principalmente psicólogos e psiquiatras, como tratar e intervir no autismo relativamente a estes aspectos do trauma. No que diz respeito aos psicólogos, é fundamental pensar em como vamos auxiliar e trabalhar em conjunto com a pessoa autista adulta para revivenciar a experiência traumática e ajudar a pessoa a melhor lidar com a experiência em si ocorrida em determinado momento no tempo passado. Mas também, como é que podemos ajudar a pessoa a identificar os gatilhos que no presente fazem despoletar as situações traumáticas ocorridas no passado. E ajudar a pessoa a melhor lidar e interpretar, mas também resignificar estas situações.



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