A depressão também sorri

Estávamos em 2011. Era Outono e já estava mais fresco. As folhas naquele ano caiam mais cedo. Às vezes acontece. Lembro-me de ter ligado a televisão quando cheguei a casa em mais um final de dia. Ligava sempre a televisão para me sentir acompanhado. Era uma voz que ali estava. Não é muito diferente daquilo que as crianças devem sentir quando pedem para deixar a luz de presença acesa ou adormecer com a mão dada à mãe. Recordo-me que naquele dia quis fazer uma omelete. Normalmente trazia comida feita da rua. Não me apetecia cozinhar apenas para mim. Tinha o telemóvel em cima da bancada. Entrou uma mensagem e eu espreitei. Nem sequer dei conta do ovo me cair da mão. "A Luisa morreu. Suicidou-se. Encontraram-na já sem vida em casa.", lia-se na mensagem. Na televisão ouvia-se em voz de fundo, "A depressão dói, mas pode deixar de doer.". Só me conseguia lembrar de a ter visto sorrir há duas semanas quando nos encontrámos por acaso na biblioteca da Faculdade.

Li há pouco que o actor Pedro Lima faleceu. A noticia indica que terá sido suicídio e que ele sofria de depressão já há algum tempo. Ao fim de muito pouco tempo reparo nas redes sociais repletas de fotos do actor, todas elas a sorrir. E as pessoas a perguntarem-se como é que podia ser, ou estupefactas de como os sorrisos podem ocultar estes desfechos.


A situação é muito complexa e facilmente nos deixamos inflamar pela dor, consternação ou angústia. Seja pela situação do actor mas principalmente pela vulnerabilidade que isso representa para cada um de nós. Se algo desta ordem acontece com o actor, também pode acontecer connosco ou com alguém que conhecemos! E esta angustia é justificada na medida em que a depressão é a perturbação psiquiátrica mais prevalecente. Os números são avassaladores.


Em Portugal, a taxa de suicídio em adolescente dos 15 aos 24 anos é de 3/100.000, sendo maior no rapazes do que nas raparigas. É a segunda causa de morte nos jovens em Portugal, dos 15 aos 19 anos, e o mesmo se passa no resto da Europa e nos EUA. Enquanto as raparigas apresentam maior tendência para realizar tentativas de suicídio, os rapazes apresentam um maior número de suicídios consumados. No entanto, dentro do suicídio, também é importante olhar para os comportamentos auto-lesivos e que ao longo do tempo pode agravar-se no sentido do comportamento suicida. Em Portugal, os estudos indicam uma prevalência de 7% e 16% dos adolescentes, sendo que entre 10% a 18% irão ter pelo menos um episódio.


Cerca de 90% dos jovens que cometem suicídio evidencia uma perturbação psiquiátrica, habitualmente depressão.


Como é que estes números podem diminuir? Precisamos de olhar para os comportamentos das pessoas, sejam crianças, jovens ou adultos, e que traduzem mal estar e sofrimento psicológico, seja diagnosticado ou não.


Mas o estigma associado à doença mental é grande. E em relação ao suicídio ainda mais. Não interesse escrever aqui o que algumas pessoas pensam sobre o comportamento em questão. Estou certo que cada um será capaz de sentir e pensar sobre isso. Mas façam-no. E não ficamos por aqui, porque o estigma em relação ao sofrimento e à tristeza também está bem patente no nosso quotidiano.


Continuamos a dizer que "Homem que é homem não chora", e depois ficamos a saber que são os rapazes aqueles que consumam em maior percentagem o suicídio. Ou quando alguém que conhecemos nos pergunta - "Estás bem?", e nós respondemos "Não, não estou nada bem!", e a pessoa fica algumas vezes sem saber como reagir. E o que dizer das pessoas que querem aprender como esconder as suas manifestações de tristeza no local de trabalho com receio de serem mal entendidos. Em todas estas situações podemos dizer imensa coisa e atirar as culpas para cima de uns e outros. Mas o certo é que apesar do esforço feito a nível internacional, uma pessoa ainda morre a cada 40 segundos por suicídio. E todos os anos morrem 800 mil pessoas de suicídio, sendo a segunda principal causa de morte entre os jovens. Em Portugal, suicidaram-se 1.450 pessoas, em 2016.


Precisamos de olhar para as pessoas e procurarmos compreender aquilo que nos estão a comunicar. Não temos que ser todos psicólogos. Esses existem para serem chamados a intervir nestas e em outras situações. Precisamos de ser amigos que escutamos os nossos amigos e colegas, e que em caso de dúvida pedirmos ajuda. Precisamos de ser pais e mãe com uma outra disponibilidade para que os nossos filhos possam confiar e sentir segurança, em si e no seio familiar. E o mesmo se poder passar nas Organizações, seja na relação com as chefias e o departamento de recursos humanos, mas também com os colegas. E não esquecer os vizinhos. Não é criar um estado ou sentido de policiamento sanitário, é fomentar uma outra disponibilidade para os relacionamentos. E sensibilizar desde cedo para a educação emocional e não apenas para a importância desta ou como parte de uma qualquer unidade curricular, mas sim como uma filosofia humanista.

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