A campanha ainda agora começou

Quando ouvimos a frase "Política Autista", normalmente e infelizmente, esta vem associada a algo negativo, a um preconceito, um estereótipo daquilo que poderão ser as pessoas autistas. Mas aquilo que vos quero falar tem a ver com outras campanhas. Lembram-se do Rodrigo Tramonte? O adulto autista com quem fiz uma Live em Julho? E se eu vos disser que o Rodrigo é pré-candidato a vereador em Florianópolis (Brasil)? Felizmente não é caso único, mas ainda assim são poucas as pessoas autistas que a nível mundial se têm candidatado a cargos políticos. E ainda menos aqueles que exerceram ou exercem o seu cargo. O autismo não é somente uma condição do neurodesenvolvimento, mas é também uma identidade politica. Apesar de conhecer muitas pessoas autistas, sejam aquelas com quem trabalho no quotidiano, mas também aqueles que por este mundo fora vão desenvolvendo o seu trabalho nas mais variadas áreas, nomeadamente da self advocacy e investigação. Uma coisa é certa, nunca tinha conhecido uma pessoa autista candidata a um cargo politico! E saber disso dá-me coragem para poder escrever este texto e de continuar como todos os dias a trabalhar nesta área.

Se não estão recordados, o Rodrigo Tramonte é um adulto autista que ficou a saber do seu diagnóstico tardiamente, tal como muitas outras pessoas adultas em todo o mundo. Esta condição que é conhecida há cerca de 80 anos tem sofrido imensas transformações e evolução do conhecimento acerca da mesma. E ainda assim continuamos a saber pouco sobre a mesma. Mas se há vinte ou trinta anos falávamos do autismo como uma condição biológico e que à partida tinha um conjunto de indicadores pré estabelecidos e conhecidos à priori. Hoje, sabemos cada vez mais que o autismo, ou Perturbação do Espectro do Autismo, tal como designado na DSM 5, apresenta u conjunto ainda mais variado de factores explicativos. Seja em relação às causas, e o estudo dos marcadores biológicos que continua intensamente a ser feito. Mas também em relação ao próprio percurso evolutivo desta condição ao longo da vida. A singularidade no autismo é cada vez mais uma verdade, e que se traduz numa heterogeneidade que precisa de ser atendida. E se sabemos que há pessoas autistas que precisam devido a algumas das suas características de um apoio individualizado 24 horas por dia. Também é verdade que há um número significativo de pessoas autistas que apresentam características, normalmente designadas de um perfil mais funcional, que leva a que estas estejam mais presentes e de forma mais dinâmica no tecido social, cultural e também politico. Até porque ser alguém activo e dinâmico a este nível não significa necessariamente de termos de ser um artista ou um politico. Enquanto cidadão, qualquer um de nós é um agente mais ou menos interventivo nestes espaços. E é desejável que assim o seja. Mas sabemos que é preciso falar mais desta possibilidade e necessidade das pessoas autistas serem eles próprios agentes interventivos e dinâmicos nestas áreas, nomeadamente na participação da construção de politicas sociais, saúde e educação para as pessoas com esta condição. Mas não só, também serem cidadãos participativos em todo o resto da definição de politicas sociais, saúde e educação para o global da população.


Principalmente, porque nas pessoas autistas vamos encontrar um pensamento divergente do normativo, e também dai a designação de pessoas neurodivergentes. É fundamental poder pensar na mais valia que é de ter pessoas com um pensamento divergente daquele a que estamos habituados a pensar. Até para podermos ter perspetivas novas e diferentes acerca dos fenómenos sociais com que nos vamos debatendo.


As pessoas autistas têm avançado cada vez mais para participar nos movimentos cívicos pela causa autista e na promoção e defesa dos seus direitos. Um pouco no seguimento daquilo que muitos pais de autistas fizeram nos primeiros anos do autismo e que ainda hoje continuam a fazer. Os pais dos autistas não servem apenas para levar os filhos às terapias. Assim como as pessoas autistas não servem apenas para se submeter às terapias sem ter uma participação na reflexão necessária sobre as mesmas. E todos nós temos observado, ainda que num movimento tímido, a participação de pessoas autistas nos projectos de investigação. Mas é fundamental que se crie esta ideia e da importância da mesmas de que as pessoas autistas são aquelas com maior importância, junto dos profissionais de saúde e investigadores, para falarem do que acontece dentro de si e de como vêm o mundo em seu redor.


E se pensarmos numa questão fundamental para as pessoas autistas e não só - a empregabilidade. Se pensarmos que a reflexão sobre a importância de olharmos para a neurodivergência como uma mais valia para o tecido empresariam e não o contrário. Percebemos que estaremos a fazer uma mudança de paradigma que irá ser reflectido na vida de muitas pessoas autistas, mas não só. Até porque há mais pessoas com formas de funcionamento neurodivergente para além das pessoas autistas. E também se tem apontado para a necessidade de que os paradigmas vigentes têm estado a ficar saturados e a começar a não dar respostas às necessidades da população e como tal necessitam de ser pensado.


O facto de termos ainda pessoas adultas que recebem tardiamente o seu diagnóstico de autismo sublinha a importância de se reflectir sobre a importância que a saúde mental e os estereótipos e representações mentais falaciosas sobre o comportamento humano têm como impacto na vida das pessoas, nomeadamente nas mulheres. Poder pensar em como fazer isso mudar no autismo, também é poder proporcionar a todos nós a possibilidade de termos uma outra forma de sermos compreendidos naquilo que são as nossas condições.


Os temas importantes não se esgotam aqui. Mas gostaria de poder sublinhar a importância que este marco da candidatura a pré candidato do Rodrigo Tramonte tem. E da forma como a mesma e a de alguns poucos mais tem para nos ajudar a todos, autistas e não autistas a reflectir.

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