À sombra da experiência psicoterapêutica

No espectro do autismo vão sendo cada vez mais as evidências de trabalhos científicos e clínicos sobre a intervenção psicoterapêutica nas pessoas autistas adultas. Normalmente, estes trabalhos são organizados sob a perspectiva dos clínicos. Estes procuram reflectir sobre algumas adaptações necessárias à técnica, dentro de cada um dos modelos que usam na sua intervenção clínica, para que seja possível uma melhor adequação às necessidades sentidas pelas pessoas autistas adultas. Contudo, excepto naquilo que vai sendo a experiência de cada um dos clínicos que vai tendo com os seus clientes, não há um enfoque naquilo que é a experiência psicoterapêutica vivida pelo próprio cliente, neste caso, um adulto autista. Daí me ter lembrado deste título - À sombra da experiência psicoterapêutica, resgatando aquilo que o Carl Gustav Jung falava da sombra enquanto percepções subliminares. Estas que parecem não ser assimiladas pela consciência, que nos dá conta daquilo que o Ego não assimila nas vivências pessoais, mas com a possibilidade de se virem a tornar conscientes no futuro. Esta sombra arquetípica, responsável pelos conteúdos

humanos gerais, mas que a cultura não consegue assimilar à consciência colectiva. Cada um de nós tem conteúdos que dificilmente alcançarão o limiar da consciência. Sendo o processo e a relação psicoterapêutica o contexto para que se dê este aclarar. Mas para isso, é fundamental que se dê a oportunidade às pessoas autistas adultas a falar sobre a sua experiência. Quer saber qual é?

Se por um lado vamos sabendo cada vez mais acerca da Perturbação do Espectro do Autismo, nomeadamente, qual a percentagem de cada uma das perturbações psiquiátricas em comorbilidade, nomeadamente Ansiedade e Depressão. Já não sabemos assim tanto sobre como a experiência psicoterapêutica é vivida pelas pessoas autistas adultas. Da mesma forma que temos muito pouca informação acerca do estabelecimento da relação terapêutica com as pessoas autistas. Sendo que neste último caso, aquilo que mais frequentemente lemos, é de que o estabelecimento desta relação está muito mais ameaçada nestes casos, atendendo às suas características comportamentais. Mas isso não parece passar de um conjunto de assunções que não estão sequer compreendidas. As pessoas autistas adultas geralmente não têm dificuldades em compreender e sentir emoções, tais como tristeza ou alegria, e muitos outros conseguem reconhecer um leque mais variado de emoções. No entanto, o reconhecimento para estar mais comprometido nas situações do quotidiano. Até porque nestas situações do dia a dia estão muitas vezes imersas em vários graus de estimulação sensorial. Facto que é sabido que compromete a vida de muitas pessoas autistas, limitando também a sua capacidade de se aperceber e ou sentir algo que possa estar a ocorrer no ambiente.


As pessoas autistas, normalmente as crianças e adolescentes beneficiam em maior número de intervenção psicoterapêutica. Até porque, sendo menores de idade, os pais verificando as suas dificuldades procuram providenciar este serviço levando-os à consulta de psicologia. Ainda que seja frequente observar seja em crianças e principalmente em adolescentes uma fraca adesão ao processo psicoterapêutico, ouvindo coisas como, "Eu não sou maluco e não tenho problemas nenhuns!". O certo é que no caso dos adultos, não sabemos muito bem porque eles procuram a intervenção psicoterapêutica. De sublinhar que as dificuldades apontadas anteriormente nas crianças e adolescentes autistas são sinais igualmente evidenciados em crianças e adolescentes neurotipicos. Mas afinal porque vão os adultos autistas fazer psicoterapia?


Parece que as razões que levam as pessoas autistas adultas a procurar ajuda psicológica, são os sintomas de Ansiedade e Depressão. Curiosamente, costumam ser os mesmos que levam a descobrir nos adultos, aqueles que ainda não sabem do seu diagnóstico. Ou seja, as pessoas procuram a ajuda especializada devido aquilo que conseguem compreender face à ansiedade e depressão, e reconhecem que o sofrimento sentido parece ter a ver principalmente com isso. E procuram uma resposta para estas suas necessidades. Até porque a grande maioria das situações que vão ocorrendo na vida das pessoas autistas são causadoras de um surgimento ou aumento da ansiedade. Desde as questões mais relacionadas com as hipersensibilidades sensoriais, mas também o facto de sentirem que têm de estar presente num conjunto de situações sejam pessoais, pessoais ou profissionais, tudo isto leva a um agravamento da sua situação clinica. Mas também o facto de sentirem que têm de camuflar mais frequentemente muitos dos seus comportamentos para que sintam que são aceites pelos neurotipicos. No entanto, apesar destas razões anteriormente descritas, também há muitas pessoas autistas adultas que procuram a psicoterapia pelas mesmas razões que todas as outras pessoas. Seja porque querem ver compreendido determinadas questões nas suas relações sociais ou pessoais, mas também por questões relacionadas com outras dificuldades (e.g., Perturbações da Conduta Alimentar). O facto de sentirem maior nível de isolamento social, questões de auto-imagem, vitimas de bullying, discriminação, traumas anteriores, etc. Ou seja, a gama de razões que leva as pessoas autistas a procurarem psicoterapia é variada.


A psicoterapia envolve de uma forma geral a exploração de pensamentos e emoções da pessoa. No entanto, os traços principais da pessoa autista estão relacionados com a compreensão de aspectos sociais, emoções, comunicação, e o desejo de ambientes mais predizíeis, e como tal é importante que o terapeuta possa ter compreensão acerca destes mesmos traços. Por exemplo, se os terapeutas que recebem estas pessoas não compreenderem as dificuldades existentes na comunicação social, tal como a teoria da mente, pode assumir erradamente que eles expressam uma compreensão do que é esperado na terapia.


Muitos terapeutas e vários estudos científicos validam a proposta de um modelo de intervenção Comportamental e Cognitivo para intervir com as pessoas autistas. Alguns dos traços observados no espectro do autismo, tal como as dificuldades comunicacionais, podem aumentar o risco de outros problemas mentais, assim como levar a dificuldades no âmbito relacional e profissional. A intervenção dentro deste modelo procura reduzir o impacto negativo destes traços. São muitos os clínicos nesta área que olham para este modelo como uma forma de aumentar a literacia emocional, ajudando a pessoa autista a reconhecer as diferentes áreas de cinzento que a vida, relações, e principalmente as emoções têm, assim como ajuda-lo a como as expressar.


O modelo Comportamental e Cognitivo não é o único modelo existente. As abordagens psicodinâmicas, por exemplo, concentram-se na ligação de relacionamentos passados ​​significativos e eventos de vida com os padrões actuais de pensamentos e sentimentos da pessoa para dar sentido às dificuldades actuais da mesma. A terapia psicodinâmica pode ser sentida como abstracta, atendendo a que trabalha com metáforas e pensamentos e sentimentos que se tornaram inconscientes, mas estão tendo um impacto negativo no Individual. No entanto, é frequente ouvir de pessoas autistas adultas que se sentiram mais perdidos ao serem acompanhados à luz deste modelo. Nomeadamente, pelo não emparelhamento daquilo que são algumas das características centrais no autismo e do que são os pressupostos do modelo psicodinâmico. Ainda que também neste modelo se tem verificado todo um conjunto de propostas de alteração à técnica para que possa ir ao encontro das pessoas autistas. Por exemplo, o uso de material escrito ou visual, maior ênfase na psicoeducação emocional e social ou a adopção de uma narrativa mais literal para facilitar a compreensão do que está a ser falado ou invés de uma forma mais metafórica, uma abordagem mais directiva, ajustamento ao passo do processamento e da comunicação, explicação objectiva das fronteiras e objectivos, nomeadamente ao longo do processo e a adopção de uma intervenção computadorizada para se adaptar às dificuldades não verbais de algumas das pessoas autistas.


E se é verdade que enquanto terapeutas devemos ter uma compreensão da forma como o nosso cliente experiencia as suas vivências independente do diagnóstico, é ainda mais fundamental no caso de estarmos a trabalhar com pessoas autistas. O impacto negativo causado é ainda mais devastador.


E não é por isso que continuamos a ter várias situações de pessoas autistas que foram procurando um acompanhamento ao longo da vida e que foram sentido alguma insatisfação face ao mesmo. Principalmente, sentem na grande maioria uma maior incompreensão em relação à sua forma de ser. As pessoas autistas podem ter maiores dificuldades no processo de socialização e na demonstração de afecto. E este facto contribuiu em muito para a falta de compreensão que ainda vai persistindo em relação às pessoas autistas, nomeadamente, perpetuadas por profissionais de saúde (i.e., psicólogos e psiquiatras). E ainda que muitas pessoas autistas possam ter dito que estão felizes na sua vida sem terem relações intimas. Também é verdade de que há muitas pessoas autistas que dizem que as relações são importantes para si. Como tal, enquanto terapeutas, devemos partir do principio que a relação terapêutica também é importante para a pessoa autista. E se pensarmos que cerca de 30% da eficácia da intervenção terapêutica é explicada pela relação terapêutica, parece-nos fundamental dar maior enfoque a este aspecto, nomeadamente na intervenção com pessoas autistas.

No processo psicoterapêutico com pessoas autistas adultas, um tem principal emergente é o da integração. Seja o de ao longo do tempo não se terem sentido integrado nos vários grupos onde foram/vão estando, seja na família, mas também na escola, trabalho, e na Sociedade. E este sentimento advêm em muito do facto de não se sentirem compreendidos por estas pessoas em relação à sua pessoa. Uns e outros foram fazendo afirmações que lhe foram causando sofrimento, estupefação ou até mesmo zanga. E este aspecto parece ser transposto para o processo psicoterapêutico. O psicólogo/a é visto frequentemente como outro neurotipico e que não vai ser capaz de compreender a sua pessoa. Lembrem-se de que estamos a falar de pessoas autistas adultas. Pessoas que já passaram por inúmeras experiências negativas com familiares, professores, colegas, profissionais de saúde, etc. E o psicólogo/a é apenas mais outro. E compreensivamente a resistência em participar inicialmente na terapia faz-se sentir. Além disso, e como já tinha referido neste texto, as pessoas autistas vão fazendo terapia ao longo da vida, principalmente enquanto crianças e adolescentes. E alguns deles vão construindo a sua representação do que é ou deve ser uma relação terapêutica e também por isso têm maior resistência em o voltar a fazer na vida adulta. Até porque em algumas situações sentem que não se conseguiram compreender ao longo de esse processo.


Por exemplo, é muito comum a pessoa referir - "Eu sentia-me igual. Qual era o propósito de continuar se me estava a sentir igual?". E os pais com filhos autistas também costumam referir com alguma frequência isso, o que reforça a suspeita do seu filho/a. Ou então outras situações em que dizem - "O psicólogo ficava a olhar para mim a aguardar o que eu tinha para dizer sobre o assunto. E na maior parte das vezes eu nem sequer sabia o que dizer!". Ter de explicar ao psicólogo aquilo que se é torna-se para a pessoa autista algo esgotante, desvitalizante. E logo volta a surgir a pergunta na cabeça da pessoa - "Se eu tenho de lhe explicar quem é que sou e como é que eu faço as coisas. Então como é que ela me vai conseguir compreender?". Um outro aspecto também frequentemente ouvido pelas pessoas autistas na terapia, é ouvirem o próprio terapeuta dizer-lhes que ele não lhe parece nada autista e que não validam o diagnóstico, mesmo que este tenha sido feito por outro colega.


Os exemplos e as situações importantes no processo de intervenção psicotreapêutica das pessoas autistas adultas não termina aqui, e voltaremos a este texto e a esta reflexão. No entanto, pareceu-nos fundamental, dada a escassez de trabalhos nesta área, mas também devido ao impacto tremendo que a experiência psicoterapêutica tem na pessoa.



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