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À espera de mim

Tenho setenta e oito anos, diz Rómulo (nome fictício). Há duas coisas que espero que a vida me conceda - eu próprio e a morte, refere. A morte parece-me plausível. Já vivi o suficiente. Talvez mais do que devia. Ou até que desejei. Sim, já desejei não viver. A vida também é minha e eu achei que podia fazer o que me apetecesse. Ou pelo menos desejar o que me apetecesse, continua. Disseram-me que era depressão. Mas apenas o disseram já em adulto, depois de ter vindo da guerra. Outra guerra, visto que nasci em 1944 no pós guerra. Disseram-me que era normal de estar deprimido. Diziam isso a muitos daqueles que foram à guerra. Não quis insistir com o médico na altura e explicar-lhe que aquilo que lhe estava a dizer era algo que sentia desde sempre. Experimentei dizer isso uma vez a um professor na escola e ele disse que era normal de alguém que tinha vindo de uma família como a minha, acrescenta. E em relação às minhas questões mais obsessivas é igual. Passei a vida a ouvir que eram manias, caprichos e adjectivos afim. Até de pessoas afamadas e distintas na ciência e medicina ouvi considerações semelhantes. Como é que eu sabia? Há muito coisa que sabia. Digo isto no passado porque me forcei a esquecer muitas coisas. Aprendi isso na guerra, refere. Até lá sofri muito. Podia afirmar com toda a certeza de que sofria todos os dias. E não, não era uma interpretação literal minha ou um exagero próprio de quem sofre. Sempre que me acontecia algo negativo na minha vida, simplesmente não conseguia erradicar da minha mente. Todos os dias revia esses e outros acontecimentos. Na maior parte das vezes os pensamentos apareciam, não avisavam, como os tiros na guerra. Tentava controla-los mas sem sucesso. Procurei aceita-los a determinado momento. Li algumas coisas sobre isso. Mas pensava - Como é que eu podia aceitar uma coisa hedionda como aquelas que vivi? Como? Como é que eu podia aceitar a miséria da existência humana ou a guerra? Já me basta os mortos que abraçava quando caia ao chão quando saiamos para o mato na guerra, percebe? Como é que eu podia aceitar? pergunta. Mas a guerra não foi apenas essa em que lutei, na verdade a única em que lutei. Pois em todas as outras guerras da minha vida nunca o fiz. Na escola era uma guerra. E não, não estou a exagerar. Batiam-me. Na verdade batiam a muitos de nós, mas a mim batiam-me mais. Batiam-me por tudo e por nada. Por falar ou estar calado. Por perguntar o que devia mas principalmente o que não devia. Quando mais tarde ouvi um pai dizer numa reunião que parece que os miúdos só aprendem à base de levarem alguns açoites. Respondi-lhe que tinha à sua frente uma pessoa muito inteligente que era eu. E de seguida perguntei-lhe se ele queria que os miúdos viessem a tornar-se como eu! Não me respondeu. Mas houve quem pareceu ter ficado agradado por ele se ter calado e nunca mais ter voltado às reuniões, continua. Se quiser que eu pare ou fazer-me outras perguntas, diga? disse-me. Pedi-lhe que continuasse. Rómulo sabia bem o que estava a fazer e eu confiava nele, disse-lhe. Acho que lhe estou a querer contar a minha vida. Algo que nunca fiz com ninguém. Também nunca percebi que alguém a quisesse ouvir e muito menos saber. Quem é que haveria de querer saber de guerra e sofrimento? perguntou-me. Ainda me chegaram a dizer que casar era o melhor remédio para mim. Nunca percebi isso. Nunca percebi o que isso poderia querer dizer. E a pessoa que o disse também não se esforçou para o explicar, diz. Não que eu não gostasse da companhia feminina. Penso que gostei como tantos outros o gostaram. Não sei muito mais para além disso. Até porque era um assunto que eu não falava com os outros homens. Ainda estive numa ou noutra situação em que o tema da conversa parecia ter a ver com isso. Não gostei da forma como se dirigiam às mulheres na conversa. Parecia que estavam a falar de outra coisa que não pessoas. E aquele tipo de conversa não fazia bem o meu tipo, não me agradava. Ainda me gozaram na escola por causa disso. Fizeram-no duas ou três vezes. Um dia dei um soco num desses e ele desmaiou. A situação ficou resolvida ali. Nunca mais me disseram. Não estou a incentivar à agressão. Até porque sempre defendi o contrário. Não sei muito bem o que me passou na cabeça mas fui direito a ele e dei-lhe um soco, foi isso que aconteceu, diz. O professor disse que tinha de apresentar o meu pedido de desculpas ao meu colega. Não o fiz. Disse-lhe que ele tinha ofendido a minha honra. Isso pareceu ter servido. Na altura ofender a honra de outra pessoa podia valer uma resposta semelhante à que tive. Aprendi isso da pior maneira lá em minha casa quando o meu pai batia na minha mãe. Não aprendi durante muito mais tempo até porque a minha mãe acabou por se suicidar. Todos choraram menos eu. Até o meu pai chorou. Ainda lhe disse se estava a chorar porque já não tinha ninguém em quem bater. Deu-me uma chapada. Foi a única. Tinha na altura dezasseis anos e sai de casa. Não é nada de extraordinário comparado com os dias de hoje. Na altura era algo até mais habitual do que se podia pensar. Comecei a trabalhar. E não, nunca encontrei nada em que gostasse de trabalhar. Deixava que o meu corpo trabalhasse e a minha cabeça fazia aquilo que sempre gostei e pensava. O trabalho servia apenas para pagar as obrigações. E para isso nunca senti que tinha de investir em ter um qualquer trabalho especial que requeresse um curso ou outro certificado qualquer. Não para arranjar dinheiro para pagar as obrigações. Se havia de trabalhar que fosse por outras razões, mas essas nunca as encontrei. Nunca ninguém criou um trabalho em que o exigido fosse pensar. Esse sim, seria logo o primeiro a me inscrever, refere. Ainda me disseram para ir para professor. Afinal de contas era algo que exigia ter algum conhecimento. Mas quando percebi o que era preciso para chegar até lá e o que exigiam que os professores fizessem, nem sequer fiz o mínimo esforço para tentar, diz. E então? O que me diz? pergunta Rómulo. Uma Perturbação do Espectro do Autismo, disse? continua. Então agora é você que precisa de me contar uma história, diz-me.


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