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À espera da felicidade

Não pareço feliz, mas estou. Naquele momento estava bastante feliz. O meu dia tinha corrido todo ele bem. A fotografia que me tiraram foi já no final da tarde. Estava bem disposta. A seguir fui jantar e deitei-me mais cedo, disse Joana (nome fictício). Não percebo o porquê de insistirem no autismo como uma nódoa que persiste em não sair da roupa mesmo que se teime em a lavar, continua. Por que é que eu não haveria de ser feliz?, pergunta. Porque sou autista?, adianta-se na resposta em jeito de pergunta retórica. Não sabem nada sobre a felicidade nas pessoas autistas porque não a estudam, diz. Não sabem como a estudar, ou como a pensar que talvez seja ainda mais grave, refere. Eu não estou à espera que me venham dizer como é que eu tenho de viver a minha vida de forma feliz. Certamente não será uma pessoa que nunca me conheceu ou que nunca me irá conhecer que o vai fazer, apenas porque desenvolveu um conjunto de estudos reconhecidos por uma comunidade cientifica em que nenhum deles é autista, avança. Se eu preciso de ajuda? pergunta. Sim, preciso. Preciso de psicoterapia e em alguns momentos preciso de medicação. Não preciso de curas ou de me dizerem como é que eu devo fazer a minha vida. Isso não é terapia, é uma ditadura. Eu não quero. Se a aceitasse não seria nunca feliz, refere. Se o facto de ter terminado a escolaridade obrigatória melhorou a minha qualidade de vida? Não não mudou! A minha vida foi toda ela muito difícil e ainda mais por me ter forçado a estar num contexto onde era incompreendida e muitas vezes mal tratada. Por isso não, fazer a escolaridade obrigatória não me deixou mais feliz. Mas fiquei com mais ferramentas. E o mesmo posso dizer da Universidade. Ainda que durante algum deste tempo na universidade me tenha sentido feliz. Não me lembro na realidade com o quê. Provavelmente foram coisas simples. Não é com coisas simples que costumam dizer que as pessoas de uma maneira geral se sentem felizes?, pergunta. O mesmo é com as pessoas autistas. Coisas simples. Não fico muito esperançada quando veja, oiço ou leio toda uma comunidade cientifica e médica a falar de tantas coisas que na verdade sinto que não se aplicam em grande parte da minha vida. E não só da minha vida como da de muitos outros, autistas e não autistas. E isso não tem nada a ver com o reconhecimento ou não do mérito do seu trabalho. Sem dúvida que o seu trabalho, pelo menos na maior parte das vezes é de mérito. Mas a pertinência do mesmo para a vida das pessoas e ainda mais como muitos o procuram fazer passar como uma prescrição para a felicidade. Isso é que eu não me contento. E na verdade penso que diz muito pouco da inteligência e sensibilidade de muitos deles, investigadores e clínicos, continua. Por exemplo, vão ver os questionários que são usados para tentar medida a qualidade de vida e bem estar em pessoas autistas. Ou ainda mais os questionários para medir a felicidade. Irrisórios. Fico incrédula. E confirmo ainda mais a ideia de que muitas pessoas não fazem ideia do que será para mim qualidade de vida e bem estar. E mais ainda, não parecem querer saber. E muitos teimam ainda em afirmar o mesmo ao longo de grande parte da sua vida profissional. Enfim. Eu vou ficar à espera da minha felicidade. A minha colega de apartamento foi lá fora passeá-la. Há três meses que a tenho. Hoje não me senti confortável em ir à rua. O dia de trabalho foi bastante difícil. Mas não, não é isso que vai fazer com que eu seja menos feliz. E o contrário também não.


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